Compositor: Gambeta
Quem dera a tristeza fosse embora quando a gente desperta
Que desaparecesse ao acordar
Mas ela insiste em continuar grudada
Nas coisas, nas casas e nos gestos
Porque nós, os velhos, choramos o que na infância não pudemos lamentar
Nos proibiram de chorar, e agora acordamos com os olhos secos
E a alma no chão de tanto chorar, em sonhos, o luto que não soubemos carregar
A fome de dor parecia uma marca fácil de carregar
Mas sempre foi uma armadilha
Aguentar parecia algo superior
Arriscamos a vida acreditando sermos os mais fortes
Mas a morte nos mostrou que não existe carga mais pesada
Do que aquela que acreditamos ser capazes de carregar
Fraco não é quem chora pelas pessoas que perdeu, mas quem não sabe chorar
Por você e por mim
[?] deixa ir
[?] por você e por mim
[?]
Tenho um cachorro, o nome dele é Luto
Eu o tranco porque não quero que o vejam
Pra ele não latir, eu o consolo
Quando não tem muita coisa, ele come restos
Fiz uma casinha bonita pra ele, mas ele dorme no telhado
Ou no meu peito
Ele se revira, me esmaga, se coça, dá voltas
Está sempre com fome, virou um peso
Não consigo carregá-lo sozinho e ninguém me ajuda com isso
Nunca deixo ele chorar
Todo mundo diz que é perigoso deixar ele escapar
Respondo que não tenho mais nada
Desde criança, como minha sombra fiel, ele sempre vem atrás
Hoje acordei, e ele não está aqui
Não sei como se procura, não sei onde encontrar
Agora, ele só me visita nos sonhos
Não sou mais o dono dele
A vida vira um tormento sem viver o luto
Por você e por mim
[?] deixa ir
[?] por você e por mim
[?]
Fim